15 novembro 2014

O REAÇA

13/11 às 10h10 - Do Blog CT

Gilberto não quer saber de política. Aliás, um sujeito desligado até demais. Sempre alheio aos debates da repartição. Na verdade, quando pode, se afasta dos polemistas, principalmente quando o clima se torna mais tenso e as vozes mais altas. Por isso, aquela conversa que o Ronaldo do terceiro piso começou quando o encontrou no cafezinho não lhe agradava nem um pouco.

- O País mudou nesses anos! - empurrava o apaixonado sobre o pobre do Gilberto, que recebia as palavras disparadas continuamente pelo militante como soldado encurralado na trincheira.

Só assentia com a cabeça com um sorriso embaçado na boca. Queria terminar logo o café e sair dali, mas estava muito quente e os lábios eram hipersensíveis.

- Você mesmo! Sei que comprou seu apartamento, comprou carro e agora viaja de avião todo final de ano. Tudo isso graças ao novo Brasil que construímos! - despejava o agressivo interlocutor. - Vai me dizer que não concorda...

Passou um filme na cabeça de Gilberto. Os mais de 25 anos de serviço, infindáveis noites de trabalho, promoções depois de muito esforço para, enfim, comprar e viajar. Não se lembrou de nenhuma ajuda de político em sua carreira. Mas, para encerrar o assunto e se livrar logo da conversa, tangenciou:

- Se você diz...

- Que isso, companheiro! Que desânimo? - estranhou Ronaldo.

Claro! Como alguém poderia não se animar diante de um Brasil tão fantástico?

E depois de refletir sob sua lógica partidária:

- Vai me dizer que tu está com aquele do outro lado? Que isso, Gilberto! Você que parece tão gente boa!

- Eu, o quê?

Gilberto não conseguia absorver o princípio que se baseava no seguinte raciocínio: se você não pertence ao partido dele, logo, é do partido do outro. Não há uma terceira possibilidade, como não concordar nem com uma, nem com outra sigla partidária, de pensar a vida apenas pela lógica da labuta diária. Não! Todos somos guiados por um partido. De situação ou de oposição.

Se só resta uma verdade possível, então, Ronaldo não precisou pensar mais de uma vez para concluir: Gilberto é inimigo!

- Você é um reaça! - quase que gritou, já nervoso, mãos trêmulas, alternando-as entre a barba e os cabelos. Deu como que uma rodopiada no corredor da cozinha, pegou um copinho descartável e, ainda trêmulo, lançou um nervoso jato de café, que, de tão forte, respingou pelo balcão. Virou-o de uma vez, parecendo cachaça.

Gilberto se pôs acuado num canto da cozinha. Os olhos, sempre tímidos, agora em sinal de alerta. Acompanhavam os movimentos desconexos do militante.

Diante da agitação quase que delirante de Ronaldo, ainda que resistindo muito, achou por bem dizer algo para tentar desfazer o mal entendido.

- Olha, rapaz, não tenho partido nenhum. Evito política, não gosto de falar desse assunto, porque cada um tem direito à sua opinião. Sou só pai de família... A coisa que mais amo nessa vida... Sabe, minha mulher, Antônia, meus filhos Júlio e Arnaldo, e minha caçula, a Amanda... Tão linda! Por eles, trabalho muito para que nada lhes falte... Pago meus impostos e minhas contas em dia. Entende, né? Andar de cabeça erguida. Isso é fundamental. Um homem como eu, simples e trabalhador, tem apenas o nome como patrimônio. Por isso, mantenho meus parcos recursos sob rígido controle. Não quero dar trabalho ao governo e nem à sociedade... Para encerrar essa conversa, a única reunião que frequento é a da minha igreja, aos domingos.

Ronaldo parou de rodar pela cozinha e passou a encarar o "opositor", como se não acreditasse no que estava ouvindo. Como pode?

Gilberto a essa altura já tinha perdido o gosto pelo café, que gelava sobre o balcão. Estudou por instantes o olhar fuzilante do mau encarado, que, por fim, disparou sem piedade:

- Tu é mesmo um puta reaça!

O militante saiu batendo o pé e soltando fogo pelas ventas.

Calmamente, Gilberto jogou a bebida gelada na pia e encheu novamente o copinho descartável. Poderia, enfim, tomar o café como gostava, mas não tranquilo, afinal, precisava descobrir o quanto de mal seu pensamento e estilo de vida vinham causando à sociedade. É o certo a fazer, pois um homem de bem não pode dar trabalho para os outros.

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